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Missões

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Atenção: Este artigo trata sobre as Missões em seu sentido histórico. Se procura pela região turística gaúcha de mesmo nome, consulte Região das Missões.
Se você procura saber como se estrutura uma Pastoral Social Missionária Católica no Brasil consulte Missões Pastorais.
Nota: Para outros significados de Missões, ver Missões (desambiguação).
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Missões, ou Reduções, são os nomes dados aos antigos aldeamentos indígenas organizados e administrados por jesuítas no Novo Mundo, como parte de sua obra maior de cunho civilizador e evangelizador, que compreendia também a fundação de colégios e conventos. O objetivo das Missões foi o de criar uma sociedade com os benefícios e qualidades da sociedade cristã européia, mas isenta dos seus vícios e maldades. De todos os inúmeros aldeamentos jesuítas os que passaram à história de modo particularmente importante por seu notável florescimento foram os fundados na região da fronteira entre o Brasil, Bolívia, Argentina e Paraguai, dos quais trata este artigo.

Índice

[editar] Antecedentes

Criada a Ordem Jesuíta em 1534 por Inácio de Loyola, poucos anos após, precisamente em 1549, cinco membros da Ordem, mais o Padre Manuel da Nóbrega, iniciaram a travessia do Atlântico a fim de concretizar o sonho evangelizador. Chegaram em Salvador e ali fundaram um colégio e a Província do Brasil da Companhia de Jesus. Quando o Marquês do Pombal os expulsou em 1760, já havia 670 irmãos espalhados de Santa Catarina ao Ceará.

Na América espanhola a empresa jesuíta iniciou mais tarde, em 1586, quando São Francisco de Borja enviou um grupo ao Peru. Em 1606 Filipe III ordenou ao Governador do Prata, Fernando Árias de Saavedra, que se procedesse à sumbissão dos indígenas não pelas armas, mas pela força da catequese, e utilizando o elemento Jesuíta.

Localização das reduções, no atual território de Argentina, Brasil e Paraguai. Nem todas as reduções estão aqui representadas.
Localização das reduções, no atual território de Argentina, Brasil e Paraguai. Nem todas as reduções estão aqui representadas.

Assim, em 1607 criaram a Província do Paraguai, que compreendia o atual Paraguai, o leste da Bolívia, a Argentina, o Uruguai e o sudoeste do Brasil, então sob domínio espanhol. A convite do Bispo de Tucumán os missionários se transferiram para o interior do continente, e junto com outros religiosos fundaram em 1609 um colégio em Assunção. Em 1610 iniciaram seu trabalho especificamente missioneiro, fundando a Missão de San Ignacio Guazú, no Paraguai, à qual seguiram cerca de 60 outras, em áreas paraguaias, argentinas e brasileiras, e destas apenas 30 chegaram a florescer significativamente.

Ver artigo principal: Companhia de Jesus

[editar] Características

Os aldeamentos se organizavam seguindo um plano geométrico perfeitamente ordenado aplicado, com poucas variações, em todos os aldeamentos. Desenvolvia-se em torno de uma grande praça quadrada, em cujo centro se instalava uma grande cruz e uma estátua do santo protetor. De um lado se erguia a igreja, com casas anexas para viúvas e órfãos e uma escola, a casa dos missionários e as oficinas; atrás da igreja se cultivavam o pomar e a horta. No lado oposto ficavam as moradias dos índios, e nos lados restantes estabeleciam o Conselho da Missão, uma portaria, uma hospedaria, capelas, um relógio de sol e uma prisão.

Em torno da aldeia cavavam trincheiras e erguiam um muro para proteção contra os ataques de indígenas selvagens e as incursões predatórias dos bandeirantes. A igreja era o único edifício mais elaborado e ornamentado, onde as técnicas artísticas aprendidas pelos índios encontravam oportunidade para sua plena expressão.

[editar] Administração

Planta da Redução de San Ignazio Miní
Planta da Redução de San Ignazio Miní
Gravura do século XVIII mostrando a Redução de Nuestra Señora de Loreto
Gravura do século XVIII mostrando a Redução de Nuestra Señora de Loreto

O governo civil era exclusivamente indígena. Consistia de um conselho eleito por votação, composto por três oficiais, três administradores, alguns auxiliares e os representantes dos bairros da Missão, todos sob a égide de um cacique geralmente hereditário.

A administração da justiça ficava a cargo dos jesuítas. Como poucos eram os crimes, os castigos usualmente eram leves. Raramente se utilizava a prisão ou se condenava ao exílio, considerado a desgraça suprema.

[editar] Economia

A cada família se atribuía uma porção de terra, hereditária, destinada a fornecer o sustento privado da família com o plantio de milho, mandioca, batata, legumes, frutas e erva-mate. Outras áreas eram "propriedade de Deus", cujos frutos revertiam para a comunidade, e onde o índio deveria trabalhar dois dias por semana.

O fumo, mel e milho serviam, às vezes, como moeda de troca. Entretanto este sistema tinha papel pouco relevante, pois os centros comunais de abastecimento forneciam o que faltasse. Por vezes se admitiam mercadores estrangeiros, por um período máximo de três dias. O comércio exterior ocorria entre as Reduções e com outras províncias espanholas, e os lucros se destinavam ao pagamento de impostos à Coroa e compravam-se materiais e instrumental variado.

Com o tempo desenvolveu-se consideravelmente a pecuária nas Missões, a ponto de em 1768 possuírem em conjunto 656.333 cabeças de gado. O comércio também cresceu, chegando a dispor de um mercado central em Buenos Aires, de onde se exportavam couros e outros gêneros como mel, frutas, tinturas e esculturas para a Europa em troca de papel, livros, seda, telhas, agulhas e anzóis, ferramentas, instrumentos de cirurgia, metais e sal. Em meados do século XVIII as importações já eram muito pequenas e as Reduções se tornaram praticamente auto-suficientes.

[editar] Quotidiano

Igreja da Redução de San Ignacio de Chiquitos, Bolívia, ainda em excelente estado de conservação
Igreja da Redução de San Ignacio de Chiquitos, Bolívia, ainda em excelente estado de conservação
Interior da igreja da Redução de Jesús de Tavarangué, Paraguai
Interior da igreja da Redução de Jesús de Tavarangué, Paraguai

A vida numa comunidade missioneira seguia uma rotina precisa. Às 4h tocava-se o sino para despertar. Seguiam-se a oração individual, as crianças eram acordadas, assistia-se à missa e às 7h os trabalhos do dia eram distribuídos. Nesta hora as crianças recebiam o desjejum e logo oravam. Às 8h realizava-se a visita aos doentes e enterravam os defuntos. Depois tomavam mate, em seguida se dirigiam aos diversos afazeres e as crianças iam às aulas.

Entre 11 e 12 horas havia o almoço, seguido de um descanso de uma hora, para depois voltarem ao trabalho. Das 16 horas em diante havia o catecismo, novas orações, lanche, récita do ofício divino do dia, e jantar. Às 20h30 os fogos eram apagados e a aldeia dormia.

Aos domingos as missas eram mais solenes, e em dias de grandes festejos realizavam-se encenações teatrais, danças comunitárias, procissões, profissões públicas de fé e às vezes auto-flagelações, combates simulados e concertos de música.

[editar] Educação e cultura

Para a fixação dos povos indígenas e construção dos povoados foram introduzidas técnicas de agricultura e pecuária, e elementos de arquitetura, cantaria e fundição, além da educação laica e religiosa básica e indispensável para a futura absorção de outros conhecimentos. Gradativamente foi sendo dado ensino adicional em artes diversas, que incluíam escultura, pintura, gravura, poesia, música, teatro, oratória e ciências.

Relatos de época informam que os reduzidos nunca chegaram a desenvolver grande compreensão das sutilezas da doutrina Cristã, sendo considerados extremamente inábeis em assuntos espirituais e tudo o que envolvia elaboração mental abstrata e originalidade segundo os critérios europeus. Em certa época chegou-se a duvidar que fossem mentalmente aptos para entender e receber os Sacramentos. Entretanto, sua facilidade para as diversas artes era notória e sua capacidade de imitação de modelos formais causava espanto nos próprios missionários. Dizia o Padre Sepp:

"O que viram uma só vez, pode-se estar convencidíssimo que o imitarão. Não precisam absolutamente de mestre nenhum, nem de dirigentes que lhes indiquem e os esclareçam sobre as regras das proporções, nem mesmo de professor que lhes explique o pé geométrico. Se lhes puseres nas mãos alguma figura humana ou desenho, verás daí a pouco executada uma obra de arte, como na Europa não pode haver igual".

[editar] Alfabetização e literatura

Os jesuítas sistematizaram a língua guarani dando-lhe grafia com caracteres latinos e produzindo boa quantidade de obras literárias, a maior parte ligada à catequização. Com isto parte dos índios foi alfabetizada em guarani, espanhol e latim, embora isso geralmente fosse reservado aos pertencentes à elite indígena. Os restantes eram educados através do ensino oral e da arte.

Em 1700 foi fundada a primeira gráfica missioneira na Missão de Loreto, na Argentina, e ali foi produzido, pelo indígena Juan Yapai em 1705, o primeiro livro impresso neste país, um Martirológio Romano. Outras produções incluíam livros diversos, calendários, tabelas astronômicas e partituras.

Arte Missioneira: São Francisco Xavier, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de Castilhos
Arte Missioneira: São Francisco Xavier, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

Alguns índios chegaram a dominar a língua e a escrita de modo admirável, como foi o caso do cacique Nicolás Yapuguay, da Redução de Santa Maria, que escrevia em guarani com grande clareza e elegância, e tendo dois de seus livros impressos. O índio Melchor escreveu a história de sua aldeia Corpus Christi, e o índio Vásquez, de Loreto, era também um bom escritor.

As Missões também geralmente possuíam uma boa biblioteca. A de Loreto contava com mais de 300 livros, a de Corpus Christi cerca de 400, Santiago mais de 180, e Candelária a cifra, assombrosa para a época, de 4.724 volumes.

[editar] Artes

Testemunhos se multiplicam sobre a grande inclinação natural dos índios para a música. O padre Noel Berthold afirmava que o Irmão Verger podia fasciná-los de tal modo quando tocava ao órgão que eles permaneciam imóveis, como que em êxtase, por até quatro horas. Muitos índios chegaram a se tornar instrumentistas exímios ou proficientes construtores de instrumentos, como Ignacio Paica e Gabriel Quiri, e o caso de um menino de doze anos que executava com perfeição sonatas e danças cortesãs de insignes mestres europeus. Diversos dentre os próprios Jesuítas eram músicos consumados, como os ditos padres Verger e Sepp, este o autor do primeiro órgão construído nas Américas, e o padre Juan Vaseo, que foi músico da corte espanhola.

Formaram ainda grandes orquestras e coros, que rivalizavam com grupos de formação européia e eram convidados para se apresentar em Buenos Aires por ocasião dos festejos de Inácio de Loyola. Na Missão de San Ignacio funcionou um dos primeiros conservatórios de música da América.

Parte do trabalho catequético dos jesuítas se valia do teatro como forma de ilustração de verdades religiosas. Encenavam-se dramas sacros, que versavam sobre a vida de santos e passagens das Escrituras, e também havia ocasiões em que eram montadas obras clássicas. Certas peças, vindas da Europa, eram traduzidas para o guarani, outras eram escritas nas próprias Reduções.

Na pintura também se registraram indivíduos com grandes dotes, como Kabiyú, artista excelente, produzindo entre outras coisas uma notável Virgem das Dores, hoje em Buenos Aires.

Arte Missioneira: Nossa Senhora da Conceição, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de Castilhos. Note-se os traços marcadamente indígenas da face e dos cabelos longos e lisos
Arte Missioneira: Nossa Senhora da Conceição, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de Castilhos. Note-se os traços marcadamente indígenas da face e dos cabelos longos e lisos

A escultura merece uma atenção especial, tanto pelo papel de relevo que desempenhava no sistema educacional e catequético jesuíta, como pela quantidade de exemplares remanescentes. Neste campo encontramos características peculiares na visível mescla de traços de várias escolas e épocas artísticas européias, desde o românico até o barroco, e elementos nitidamente indígenas, aqui e ali visíveis nas feições de algumas imagens, em certas posturas hieráticas e adornos típicos, e mesmo na rusticidade de execução, sendo talvez a arte em que o elemento autóctone encontrou mais oportunidade de expressar sua individualidade atravessando o rígido arcabouço de preceitos estilísticos importados. Entretanto, se tais desvios são tomados por parte da crítica como autênticos sinais de originalidade, por outro diversos autores os interpretam como mera inépcia no mister.

De qualquer forma, parece provável que as peças hoje consideradas de maior qualidade tenham saído das mãos dos próprios jesuítas, alguns dos quais mostravam domínio superior do ofício, como os padres José Brasanelli, Anselmo de la Matta e novamente Antônio Sepp. Aos índios cabia a participação como meros auxiliares, ou eram incumbidos, quando trabalhando sem intervenção direta dos padres, apenas da produção de obras menores. Mas há exceções registradas, como a do índio José, que em 1780 produziu uma estátua do Senhor da humildade e da paciência, hoje na Igreja de São Francisco de Buenos Aires, considerada um dos marcos iniciais da arte nacional argentina. Outro aspecto a ser levado em conta é o hábito de trabalho coletivo para produção de cada peça, o que muitas vezes torna difícil a obtenção de uma homogeneidade formal em cada exemplar específico e mais ainda a identificação estilos individuais.

Também a arquitetura é digna de destaque. Os Jesuítas introduziram uma notável organização urbana em seus povoados, com benfeitorias que não se encontravam em muitas cidades européias de população comparável, com pontes, canalizações para irrigação, fontes para água e moinhos. As moradias, distribuídas em séries regulares, eram inicialmente de barro, mas logo passaram a ser feitas de pedra, possuindo vários aposentos, chaminés e cobertura de telhas. Porém as igrejas constituíram a sua glória neste campo. O modelo empregado foi o típico barroco jesuíta, ou da Contra-Reforma, de linhas majestosas e sóbrias externamente, mas com profusa ornamentação interna nos altares entalhados e dourados, nos objetos do culto feitos de metais preciosos e pedrarias, e na estatuária, de impressionante vivacidade e beleza plástica. Dos arquitetos são importantes o padre Juan Primoli, construtor da igreja de São Miguel, e Andrés Blanqui.

Ruínas da redução de São Miguel Arcanjo, no Brasil, Patrimônio da Humanidade
Ruínas da redução de São Miguel Arcanjo, no Brasil, Patrimônio da Humanidade

[editar] Dificuldades

A vida das Missões não encontrou sempre este cenário que se aproximava de uma utopia. Muitas vezes os índios não se habituavam aos rigores e complexidades da disciplina Inaciana, e revertiam para as selvas. Outras vezes grupos tinham de ser levados à força para as reduções, como no caso dos guaiaquis, ou foram simplesmente dizimados, como os guenoas em 1708, por resistirem ao aldeamento compulsório. Também há notícia de epidemias, tempos de fome e ataques de povos indígenas não reduzidos.

[editar] As Missões no Brasil

Ver artigo principal: Jesuítas no Brasil

[editar] A ameaça Bandeirante

Mas de todas as ameaças de longe a mais séria foi a impiedosa e constante rapina empreendida pelos Bandeirantes brasileiros na primeira metade do século XVII, que escravizaram ou massacraram centenas de milhares de indígenas. Treze Reduções fundadas no oeste do Paraná tiveram de ser abandonadas em 1631 por causa das constantes investidas paulistanas, ocasionando um êxodo de cerca de 12 mil pessoas para o sul.

A Batalha de M'Bororé, travada em 1641 por bandeirantes, auxiliados por índios tupis, contra os guaranis reduzidos e soldados paraguaios, terminou com a vitória destes, o que conteve o ímpeto expansionista dos brasileiros por um período considerável, e permitiu que as Missões continuassem a florescer por mais um século.

[editar] A fundação dos Sete Povos

Um pouco antes, em 1626 o Padre Roque Gonzales havia penetrado no Rio Grande do Sul, criando a Província do Tape e fundando a Missão de São Nicolau de Piratini. Dezessete outras reduções foram fundadas até 1634, sendo a última a de São Cristóvão, distando apenas 200 km da atual Porto Alegre.

Quase todas as Reduções do Tape foram destruídas por bandeirantes nos anos seguintes, e os índios sobreviventes migraram em massa de volta para território argentino, onde poderiam contar com a maior proteção dada pela Coroa espanhola. Somente após 1687 os jesuítas voltaram a penetrar no território riograndense, seja atraídos pelos enormes rebanhos de gado que procriavam livremente nos campos sulinos, seja como instrumento da Coroa espanhola para conter os avanços portugueses na região, a razão desta volta não é clara. Seja como for, é nesse ano que fundam as Reduções de São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São Miguel. Logo em seguida foram fundadas São João Baptista, São Lourenço Mártir e Santo Ângelo Custódio, constituindo os chamados Sete Povos das Missões.

[editar] O fim

Lateral da igreja na redução jesuítica de San Ignacio Miní, Misiones, Argentina
Lateral da igreja na redução jesuítica de San Ignacio Miní, Misiones, Argentina

Em 1750 a pendência entre Portugal e Espanha sobre os limites de seus domínios foi resolvida pelo Tratado de Madri, segundo o qual aquela região passou a pertencer a Portugal em troca da Colônia do Sacramento e das Filipinas. Foi então determinado que os índios abandonariam as Missões e o governo português daria 4.000 pesos a cada vila.

Apesar disto, nem os religiosos nem os guaranis aceitaram o tratado. Os jesuítas se mobilizaram e chegaram a oferecer aos reis da Espanha grande quantidade de tributos e riquezas para manter intacta aquela colonização baseada exclusivamente em valores religiosos e culturais. Em Portugal pouco puderam fazer, pois estavam deterioradas as relações entre aquela Ordem e o Estado.

Diante dos primeiros confrontos eclodiu a chamada Guerra Guaranítica, que durou de 1750 até 1756. Os índios enfrentaram completamente desorganizados os exércitos português e espanhol, e não conseguiram resistir muito tempo. Seu principal líder foi Sepé Tiarajú, mas logo sucumbiram na Batalha de Caiboaté face à superioridade das forças ibéricas, e houve grande mortandade. Seguiu-se a ocupação dos povoados que os índios, ao abandoná-los, iam incendiando.

[editar] A expulsão dos jesuítas e o fim das Reduções

Estavam os Sete Povos quase inteiramente devastados quando, em 1761, Portugal e Espanha anularam o Tratado de Madri. Índios e jesuítas voltaram a cruzar o rio Uruguai, retornando aos Sete Povos e reconstruindo-os nos mesmos lugares onde antes os haviam assentado, mas este último ciclo teria vida curta. Sofrendo intensa campanha difamatória na Europa e mesmo nas Américas, a Ordem Jesuíta foi responsabilizada por todos os males da região e por tentativas de criar um estado autônomo à revelia da Coroa. Já haviam sido em 1759 expulsos de Portugal, e em 1767 a Espanha fez o mesmo, o que colocou um ponto final na empresa missioneira, selado definitivamente com a supressão da Ordem em 1773.

Os índios remanescentes tiveram destino inglório. Suas terras foram ocupadas, perderam os seus bens, sofreram abusos de toda espécie por parte dos europeus, corromperam-se na bebida e no roubo para sobreviver ou morreram à míngua em grande número, e por fim os que ainda viviam foram incorporados às forças armadas portuguesas e espanholas, sendo envolvidos como massa de manobra em todos os conflitos regionais subseqüentes.

[editar] O legado das Missões

Arte Missioneira: Nosso Senhor dos Passos, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de Castilhos.
Arte Missioneira: Nosso Senhor dos Passos, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de Castilhos.

Como evento isolado as Missões Jesuíticas são um dos fenômenos culturais mais interessantes e peculiares da história das Américas. O florescimento social que representaram, as relíquias arquitetônicas e artísticas que deixaram e o modelo de vida que buscaram instaurar têm valor perene por si mesmos, e parte deste legado hoje é Patrimônio da Humanidade.

Porém, muito se tem discutido sobre o verdadeiro papel e caráter dos Jesuítas e dos índios neste grande ciclo sócio-cultural. Diversos autores consideram os padres como simples senhores de escravos travestidos de anjos evangelizadores, instrumentos das potências européias num impulso imperialista. È criticada a quase completa supressão da cultura indígena original na organização vital dos aldeamentos e a imposição de uma civilização alienígena sem considerações a respeito das peculiaridades da sensibilidade e cultura autóctones, e também a falha fundamental na didática jesuíta, provada pela dissolução imediata de todas as aquisições culturais e espirituais quando o índio foi privado da orientação dos religiosos, não havendo traços detectáveis da formação de uma cultura ou sequer de uma escola artística, mesmo híbrida, que tenha subsistido de forma independente e viva após a derrocada da Ordem e suas Reduções.

A favor dos jesuítas se encontram os argumentos dos bons tratos que usualmente eram dispensados aos reduzidos, da moderação dos hábitos muitas vezes brutais dos silvícolas em direção a um princípio de ordem e civilidade, da harmonia do convívio social experimentada nas Reduções e testemunhada por várias fontes, e da permanência de um riquíssimo acervo artístico e arquitetônico que de uma forma ou outra resultou de todo o processo.

Do lado dos índios o balanço final talvez seja de difícil avaliação, uma vez que a cultura predominante tende a analisar as coisas sob sua ótica particular. Com certeza foi uma experiência impactante para os povos antes selvagens, mas no contato com o branco a anulação de sua índole vital, de sua visão de mundo e de sua cultura - cujos elementos, quando preservados, eram adaptados e traduzidos sempre para servir ao propósito colonizador - talvez tenha sido uma perda mais importante que os supostos benefícios recebidos. Muito se tem aplaudido as igrejas, a estatuária, a música e as outras artes de que foram autores ou co-autores, das quais muitas só sobrevivem através de relatos, mas uma vez que nenhuma tradição se arraigou entre eles que pudesse evoluir independentemente a partir do modelo inaciano quando as Missões foram extintas, talvez seja procedente o argumento de que o indígena, com exceções notadas, não passou de uma tábua rasa nas mãos dos religiosos.

Em termos políticos e demográficos as Missões exerceram um impacto fundamental na definição de fronteiras e na criação de povoamentos que deram origem a prósperas cidades, contribuindo inegavelmente para a ocupação e organização de um vasto território em várias nações sul-americanas, e na orientação da evolução social em direção ao modelo que hoje prevalece.

[editar] As Missões na cultura

Na cultura, tanto erudita como popular, as Missões ainda são um tema fértil e seu caráter - real ou suposto - de utopia já deu margem ao surgimento de obras literárias, documentários, exposições de arte e filmes, bem como à formação de um folclore próprio, com variadas abordagens e conclusões. Já no século XVIII O Uraguai, de Basílio da Gama, ele mesmo um ex-jesuíta, apareceu como uma nota discordante da opinião generalizada da época que tendia a ver os jesuítas como protedores do povo indígena, considerando que seus vícios foram a causa de sua própria queda. Sua revalorização cultural tomou impulso a partir de meados do século XX, quando arquitetos estrangeiros passaram a dedicar sua atenção ao modelo urbano das Reduções, e os órgãos de Patrimônio Histórico também se voltaram para elas na preservação de suas relíquias, de certa forma trazendo-as novamente à evidência. Em anos recentes a produção cinematográfica norteamericana A Missão, estrelada pelo conhecido ator Robert De Niro, recebeu larga divulgação e diversos prêmios internacionais.

As Missões são apresentadas nos dias de hoje pelo poder público brasileiro como um momento glorioso na história do sul do Brasil, e seus índios massacrados na Guerra Guaranítica são retratados como heróis, embora esta postura tenda a ocultar ou dissimular os graves problemas enfrentados por todas as comunidades indígenas que sobrevivem, em grande parte num estado de miséria e relativo abandono, numa espécie de "cultos ao esquecimento, liturgias que desarmam os guerreiros homenageados e se apropriam de sua causa", segundo palavras de Paulo Suess. Não obstante a tendência a uma glorificação acrítica foi assumida em boa medida pela cultura popular, mesmo aquela derivada de uma matriz não-indígena, e especialmente em torno da figura de Sepé Tiaraju se formou um considerável folclore que o elevou à categoria de santo popular, sendo nome de uma estrada e de uma cidade no Rio Grande do Sul, e recebendo o título de herói estadual.

[editar] Ver também

[editar] Bibliografia

  • Damasceno, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Globo, 1971.
  • Trevisan, Armindo. A Escultura dos Sete Povos. Brasília: Editora Movimento / Instituto Nacional do Livro, 1978.
  • Trevisan, Armindo. O Barroco Indígena das Missões Jesuíticas, in Coronel, Luiz. (org.). O Legado das Missões. Porto Alegre: WS Editor / Prefeitura de São Miguel das Missões / Ministério da Cultura, sem data.
  • Golin, Tau. A Guerra Guaranitica: como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os sete povos dos jesuítas e índios Guaranis no Rio Grande do Sul
  • Lugon, Clovis. A República Comunista Cristã dos Guaranis (1610-1768)
  • Dalcin, Ignácio. Em busca de uma "terra sem males": as reduções jesuíticas guaranis, evangelização e catequese nos sete povos das missões
  • La Tierra Sin Mal de los Guarani: Economia e Profecía
  • Abou, Selim. La "Republique" jesuite des Guaranis (1609-1768) et son heritage. Libraire Academique Perrin/Unesco, 1995.
  • Custódio, Luiz Antonio Bolcato. Missões Jesuíticas: Arquitetura e Urbanismo. Porto Alegre: Memorial do Rio Grande do Sul, Cadernos de História nº 21. [1]
  • Suess, Paulo. O anti-herói Sepé Tiaraju. Conselho Indigenista Missionário. 10/02/2006 [2]
  • Padre Labouche. As Missões Guaraníticas: A Formação de uma Cristandade. Revista Permanência (on line)[3]

[editar] Ligações externas

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